“Tudo é Tempo”, único longa documental da competição pelo Troféu Candango, acompanha eleitores sem devoção partidária
Foto © Itallo Santos
Por Maria do Rosário Caetano, de Brasília (DF)
“Tudo é Tempo”, longa documental de Marcos Guttman, carioca nascido em Columbus, nos EUA, trouxe as eleições presidenciais para a mostra competitiva da quinquagésima-nona edição do Festival de Brasília. Não as eleições desse ano, mas as realizadas entre 2002 e 2022.
O filme, recebido pelo público com palmas calorosas, rememora a história brasileira ao longo de duas décadas pelo olhar de quatro personagens, todos credenciados a votar no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro.
Guttman iniciou as filmagens com 40 eleitores da seccional Pedro II, na eleição que antagonizou, em 2002, José Serra (pelo PSDB) e Lula (pelo PT). Buscou pessoas as mais diversas, negras e brancas, moradoras de favelas ou da Zona Sul, praticantes de ofícios valorizados (Medicina) ou não (faz-tudo). E até desempregados.
Na zona eleitoral instalada no tradicional Colégio carioca, o documentarista encontrou o jovem Carlos Ibrahim, nascido no Panamá e criado na Bélgica, onde o pai, o líder sindical José Ibrahim (1946-2013) viveu o exílio. Vale lembrar que Ibrahim, que aparecerá numa mesa, já de cabelos grisalhos conversando com o filho, foi trocado pela libertação do embaixador dos EUA, Charles Elbrick, e banido de seus país (e de sua Osasco natal).
Ao jovem Ibrahim, que passou pela primeira peneira (foram escolhidos doze personagens, depois só quatro), somaram-se o ‘faz-tudo’ Fernando Pereira, a médica infectologista Cristiane Rosa e o poeta (e desempregado) Heber Cunha. Eles foram, entre os 12 pré-selecionados, os “personagens” que conseguiram encantar o diretor e sua pequena equipe.
O quarteto, composto de mutantes empedernidos (o passar dos anos deixará isso claro), constituirá a essência, a alma, do filme. E nos dará matizada representação de um Brasil que se encheu de esperança com a primeira eleição presidencial de Lula, mas, algumas eleições depois, estaria fraturado ao meio, polarizado. E elegeria um candidato de extrema direita, Jair Bolsonaro, para comandar 210 milhões de brasileiros.
O mais fascinante dos personagens é o afro-brasileiro Fernando, o Nando. Morador de favela erradicada, ele foi transferido para a nascente Cidade de Deus. Lá, se virou nos trinta. Foi motorista de caminhão e de madame, limpador de caixas de gordura, empreendedor de pequena construção civil, sem esquecer o samba, sua maior paixão. Agenciou belas passistas e foi puxador (intérprete) da Escola em Cima da Hora, glorificada com o tema e samba-enredo “Os Sertões”.
Com seu carisma, Nando rouba a cena. Diz ter baixa instrução, mas se expressa com desenvoltura e ótimo vocabulário. E diverte o público com sua notável sagacidade e ditos populares. “Para arrumar dinheiro, eu transformo macaco em galinha”, dirá. Ele é capaz de citar preço de sacos de cimento ou de arroz com precisão, enumerando até os centavos. E com acréscimo impensável: “notem que os preços são sempre ímpares, nunca pares”. E cantará, com voz melodiosa, um dos mais belos sambas da Vila Isabel, imortalizado na voz de Martinho da Vila (“Kizomba”). Sua oratória é tão aliciadora, que o título do filme nasceu de uma de suas reflexões sobre o tempo. Que ele vê como matéria-prima da vida, pois “Tudo é Tempo”.
A médica Cristiane se define como de “classe média alta”, embora tenha origem humilde. Quer morar num apartamento no Leblon. Chegará a Ipanema, mas ainda na base do aluguel. Votará em José Serra, por ver o PSDB como a melhor opção. Tem grandes restrições a Lula e às suas bandeiras vermelhas. Em certo momento — algumas eleições depois —, ela votará em Bolsonaro. Sua filha, com ela na sessão eleitoral, traz um adesivo de Fernando Haddad colado na blusa. Era o tempo das divergências familiares. A derradeira participação da médica infectologista no filme será espantosa. De tão inesperada.
Heber Cunha, que vive de poesia, com mulher e filho na retaguarda, funciona como um “agente provocador” ao longo dos 85 minutos de “Tudo é Tempo”. Suas ideias são imprevisíveis. Está sempre mudando de lugar (moradia) e pronto a destoar o coro (e o voto) dos contentes. Mas suas contradições são imensas. Ele é, mesmo, uma metamorfose ambulante. Quando revirar suas ideias (e opção eleitoral) pelo acesso, será questionado. O documentarista mostrará (ao “personagem”) gravação, na qual ele expressava justo o oposto do que acabara de dizer.
Heber não perde o prumo. Sai-se com mais uma tirada provocadora: “Quem não se contradiz já se sente realizado”. Não é o caso dele, já entrado nos anos e radicado em Lumiar, comunidade de cultores do Santo Daime.
Os testemunhos de Nando, Cristiane e Heber nos mostram que partidos políticos não estão no centro das atenções de milhares, milhões, de brasileiros. Caberia, no filme, a Carlos Ibrahim, que se define como cidadão “essencialmente dedicado à política” e atuante em duas OSCIPs (Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público), representar o brasileiro politizado. Aqueles que acreditam na organização partidária.
Até ele, porém, apresentará sintomas de síndrome que podemos, como Raul Seixas, chamar de “metamorfose ambulante”. Carlos Ibrahim começa sua militância no PCB (Partido Comunista Brasileiro), mas se desilude. Migra para o PSDB. E, em certos momentos, parece em deriva partidária. No plano pessoal, sofrerá as consequências de dupla hemorragia cerebral. Revelará o fato médico ao documentarista quando este o interromper em acirrada discussão política. Exige que não seja interrompido, pois tem dificuldades de emitir ideia com clareza, quando interpelado no meio de um raciocínio. Ele, que prometera submeter-se ao escrutínio das urnas, terminará o filme sem cargo eletivo.
Marcos Guttman, diretor de vários curtas, de dois telefilmes (um sobre Guignard e outro sobre o velejador Lars Grael) e de três longas (os ficcionais “Maresia”, “Viver o Vento”, em finalização, e “Tudo é Tempo”), participou do debate do Festival de Brasília ao lado de seu montador, Arthur Frazão, e do diretor de fotografia (dividida com Martitza Caneca) MarKão Oliveira. O trio ouviu questionamentos e elogios ao filme.
O cineasta justificou a ausência da eleição de Dilma Roussef (2014) na narrativa:
— Começamos a filmar nossos personagens na eleição de 2002, sem grana, “na guerrilha”, com câmera emprestada e ajuda de amigos. Sem recursos para prosseguir, pensamos em desistir. Mas continuamos em contato permanente, nem que fosse por via telefônica, com o quarteto escolhido. Eles próprios, os personagens, nos estimularam a prosseguir. Filmamos, então, Nando, Cris, Heber e Carlos Ibrahim em novas votações. Mas não em todas. Até porque nós dedicamos, para valer, ao que mais nos interessava. A vida dos personagens, seu dia a dia, embates profissionais, suas mudanças e desejos.
O documentário foi se estruturando ao longo dos anos. No começo — já que um de seus filmes de diálogo era “Ana dos 6 aos 18” (Nikita Mikhalkov, 1993) —, Guttman pensava em usar imagens de arquivos. Depois, frente ao material colhido com seus personagens, decidiu que eles, sim, seriam o centro de tudo. O contexto histórico se daria em imagens vistas pelos personagens, na TV convencional e, depois, na internet.
Marcos Guttman fez questão de dizer que “o que mais mudou nesses 20 anos de filmagens, foi a mídia”. Quando ele e sua equipe iniciaram “Tempo é Tudo”, jornais impressos e TVs abertas, em especial, o Jornal Nacional, da Globo, eram as principais fontes de informação”. Em 2018, ano da eleição de Bolsonaro, “as redes sociais, a internet, haviam mudado tudo”. Foram “o elemento decisivo no processo eleitoral”.
O documentarista citou, entre suas fontes de diálogo, “Cabra Marcado para Morrer”, de Eduardo Coutinho e, em certa medida, “Santiago”, o “filme de revisita” de João Moreira Salles:
— Esses dois filmes e o longa de Nikita Mikhalkov foram muitos importantes no nosso processo de criação de “Tudo é Tempo”. O “Cabra”, obra seminal, e todos os filmes de Eduardo Coutinho nos ensinaram muito. Nos ensinaram a desenvolver relações com os personagens, sem julgá-los. No filme, nós observamos nossos persongens. Não queremos impor uma ideia pré-estabelecida a eles.
