“O Apego” e “Nouvelle Vague” são os eleitos dos prêmios César e “O Agente Secreto” perde para “Uma Batalha Após a Outra”
Foto: “Nouvelle Vague”, de Richard Linklater
Por Maria do Rosário Caetano
Os quase cinco mil integrantes da Academia Francesa de Cinema dividiram, com parcimônia, os principais troféus da “Noite do César” entre “L’Attachment” (O Apego), de Carine Tardieu, e “Nouvelle Vague”, de Richard Linklater.
O uso da expressão “com parcimônia” se faz necessário. Afinal, não houve consagração a nenhum dos filmes que disputaram a quinquagésima-primeira edição do “Oscar francês”. “L’Attachment”, que concorria em oito categorias, só converteu três, incluindo a de melhor filme. Já a cinefílica ode do estadunidense Linklater a Jean-Luc Godard e a seu seminal “Acossado”, converteu quatro de suas dez indicações, sendo a principal a de melhor direção.
A escolha de “Uma Batalha Atrás do Outra”, de Paul Thomas Anderson, como melhor filme internacional, acabou com a expectativa dos brasileiros que torciam por “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho.
A festa francesa, presidida pela atriz Camille Cottin, foi, no frigir dos ovos, pautada por verdadeira “reforma agrária” de troféus. A se notar, em registro negativo, o gelo recebido por “Foi Apenas um Acidente”, produção francesa comandada pelo iraniano Jafar Panahi. O longa concorria a duas míseras categorias (melhor filme e roteiro original). Foi ignorado em ambas.
Os acadêmicos reconheceram uma dezena de filmes, sem dedicar arrebatamento a nenhum deles. Isto aconteceu porque 2025, referência do César de número 51, não se constitui como ano luminoso para o cinema francês. Bem diferente do ano passado, quando “Emilia Pérez”, de Jacques Audiard, causou furor, polêmica e, até, campanha massiva e negativa nas redes sociais. E mesmo assim, levou sete troféus para casa (incluindo melhor filme). A maior prova de que o ano não foi especial para o cinema bleu-blanc-rouge se faz notar na questionável indicação de um longa-metragem com DNA 100% iraniano (diretor, trama, idioma, atores etc. etc.) ao Oscar. Para abrir espaço para filmes de diretores que sofrem perseguição política, há que se adotar prática semelhante às do Comitê Olímpico (bandeira especial, tipo ONU do audiovisual).
O vencedor “L’Attachment” (O Apego, em tradução literal, ou “Os Laços que nos Unem”), é um drama estrelado pela ítalo-francesa Valeria Bruni-Tedeschi, atriz luminosa, mas que perdeu o César para Léa Drucker (por “Dossiê 137”).
Valeria, irmã da ex-primeira dama da França, Carla Bruni (Sarkozi), interpreta Sandra, uma cinquentona ferozmente independente, que será obrigada a compartilhar sua intimidade com vizinho de porta, pai de dois filhos. Essa realidade, que se impõe de um hora para outra e contra sua férrea vontade, conseguirá modificá-la? Ela aceitará aqueles “intrusos”? Pio Marmaï, Vimala Pons, Raphaël Quenard e César Botti completam o elenco. O filme teve modesta estreia na seção Orizzonti do Festival de Veneza 2024. Mas foi bem na bilheterias (779 mil espectadores).

Já “Nouvelle Vague” marcou um ano de ouro para seu realizador, Richard “Boyhood” Linklater. Além de sua encantadora homenagem a Godard e companheiros de estrada, o estadunidense assina “Blue Moon”, que pode render o Oscar de melhor ator a Ethan Hawke.
Os franceses se emocionaram com “Nouvelle Vague”, escrito por uma brigada de roteiristas franceses (liderados por Vince Palmo, Holly Gent Palmo, Michèle Halberstadt e Laetitia Masson) e falado na língua de André Bazin. E mais, com atores franceses, a começar por um simpático Guillaume Marbeck, que deu vida a Godard. A lamentar, somente a escolha do insosso Aubry Dullin, sem nenhuma semelhança e charme, de forma que não conseguiu emular o carisma de Jean-Paul Belmondo, um notável cara dura, espécie de “Humphrey Bodart gaulês”. O “acossado” de Godard merecia melhor intérprete.
A ficção, baseada em fatos reais, de Richard Linklater tocou o coração dos cinéfilos franceses (e brasileiros), mas teve desempenho apenas razoável nas bilheterias do país europeu (133 mil espectadores). Foi, de todos os concorrentes ao César, o que levou mais troféus (quatro).
Dessa vez, Dominik Moll, que causara sensação em edição do César de poucos anos atrás (com o thriller “A Noite do 12”), viu “Dossiê 137” reduzido a uma estatueta (melhor atriz para Léa Drucker). Mesmo caso de “La Petite Dernière” (A Caçula), da atriz (e agora cineasta) Hafsia Herzi. Com seis indicações, o filme só cravou um César (de atriz revelação, para sua protagonista Nadia Melliti, intérprete de jovem homoafetiva, de origem magrebiana, que vive ficcionalmente seus primeiros amores).
“A Mulher Mais Rica do Mundo”, de Thierry Klifa, protagonizado pela diva gaulesa Isabelle Huppert, também ficou com apenas um César – melhor ator para Laurent Lafitte. O filme conta a história da (já falecida) bilionária Françoise Liliane Bettencourt, da empresa de cosméticos L’Oréal.
“O Desconhecido do Grande Arco”, de Stéphane Demoustier, cinebiografia de provinciano arquiteto dinamarquês (Johan Otto von Spreckelsen, que desenhou o Arco de la Défense), assemelha-se, em demasia, a um representante do “cinéma de qualité”, tão combatido por François Truffaut. Mas mostra o quanto o cinema francês está em busca de internacionalização. O filme venceu em duas categorias técnicas (melhor direção de arte e efeitos visuais).
Três filmes merecem destaque, pois receberam, cada um, dois prêmios César. “Arco”, de Ugo Bienvenu, um dos cinco finalistas ao Oscar de melhor animação, além de triunfar em casa como melhor longa animado, emplacou música original (para Arnaud Toulon).
Em cartaz no Brasil, “Arco” (nome do protagonista, um garotinho que vem do Futuro) tem uma história tocante e foi desenhado com imensa poesia. Depois de um início pouco envolvente, a trama engrena e nos encanta. E o faz em tempo perfeito (apenas 72 minutos).
No campo do documentário de longa duração, o vencedor foi “Le Chant des Forêts”, de Vincent Munier. Melhor documentário e, derrotando filmes de ficção, melhor som (para Romain Cadilhac, Olivier Touche e Olivier Goinard).
“Nino”, de Pauline Loquès, além de ser escolhido como melhor filme de diretor estreante, viu Théodore Pellerin ser eleito como melhor ator revelação.
O AGENTE SECRETO
O que significa a derrota do thriller pernambucano protagonizado por Wagner Moura? Ela sinaliza que suas chances de ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro estão se esvaindo?
Algumas reflexões se impõem nessa hora. Primeiro, há que se relativizar o argumento de que a vitória de “Uma Batalha Após a Outra” demonstra que o segundo maior colegiado de votantes da Europa (Reino Unido em primeiro lugar) mostrou-se hostil a “O Agente Secreto”. Assim como haviam feito os votantes britânicos.
Esse raciocínio só faria sentido se os mesmos longas-metragens em disputa na categoria melhor filme internacional (no César, no Bafta e no Oscar) fossem os mesmos.
No caso do Bafta, o “Oscar britânico”, a lista era parecida, mas não idêntica. O longa de Paul Thomas Anderson venceu o prêmio britânico, mas na categoria principal – melhor filme. Não figurou entre os concorrentes (nem poderia) a “filmes em língua não-inglesa”. A vaga ficou com “A Voz de Hind Rajab”, da tunisiana Kaouther Ben Hania. Já no César, este filme deu lugar a “Black Dog”, do chinês Guan Hu. E o quinto concorrente ao Oscar (sob bandeira francesa – “Foi Apenas um Acidente”, de Jafar Panahi) não participou da categoria estrangeira na competição francesa. Afinal, por ser considerado um filme francês, ele entrou na cota da casa. disputando duas míseras categorias (e sofreu mais um revés).
Como o Bafta escolheu o norueguês “Valor Sentimental”, de Joaquim Trier, como melhor filme internacional, os votos britânicos apontam nessa direção. Estima-se mais de 900 votantes do Reino Unido no colegiado que faz as escolhas dos vencedores do Oscar. Já os votos dos franceses (calcula-se que cheguem a 700 almas) não apontam tendência, pois “Uma Batalha Após a Outra” não participa da categoria filme internacional.
“Valor Sentimental” segue como o grande favorito ao Oscar estrangeiro. Afinal, concorre em nove categorias e é um filme de grande força narrativa e capaz de emocionar, como drama familiar, amplas (e ecléticas) plateias.
“O Agente Secreto”, de construção mais disruptiva e, portanto, menos “palatável”, segue no páreo. Como o norueguês, disputa a categoria principal (sem chances para os dois, pois “Uma Batalha Após a Outra” é o franco favorito). E pode ser premiado em mais três categorias — ator (Wagner Moura), roteiro original (Kleber Mendonça Filho) e melhor casting (Gabriel Domingues).
Resumindo: os outros três concorrentes ao Oscar internacional não têm se destacado em outras competições. “Foi Apenas um Acidente”, depois de triunfar em Cannes, vem fazendo campanha esquisofrênica, por ser 100% iraniano e concorrer sob bandeira francesa. Do espanhol “Sirât”, esperava-se, por suas qaualidades e impacto, mais indicações. Só cravou duas (filme internacional e som). E “A Voz de Hind Rajab” protagoniza campanha com chances modestas. Daí que não são irrelevantes as chances do filme brasileiro ganhar um Oscar (quem sabe de casting). E se der zebra e Wagner Moura derrotar os astros hollywoodianos DiCaprio e Chalamet, como fez o jovem Robert Aramayo, no Bafta?
Confira os vencedores do César:
. “L’Attachment” (“O Apego” ou “Os Laços que nos Unem”), de Carine Tardieu – melhor filme, atriz coadjuvante (Vimala Pons), roteiro adaptado (Carine Tardieu, Raphaële Moussafiir e Agnès Freuvre)
. “Nouvelle Vague”, de Richard Linklater – melhor diretor, fotografia (Davide Chambille), montagem (Catherine Schwartz), figurino (Paqscaline Chavanne)
. “ Dossiê 137”, de Dominique Moll – melhor atriz (Léa Drucker)
. A Mulher Mais Rica do Mundo” – melhor ator (Laurent Lafitte)
. “Arco”, de Ugo Bienvenu – melhor longa de animação, música original (Arnaud Toulon)
. “Le Chant des Forêts”, de Vincent Munier – melhor longa documental, melhor som (Romain Cadilhac, Olivier Touche e Olivier Goinard)
. “Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson – melhor filme internacional
. “Nino”, de Pauline Loquès – melhor filme de estreia, melhor ator revelação (Théodore Pellerin)
. “Um Urso no Jura” – melhor roteiro original (Franck Dubosc e Sarah Kaminsky)
. “O Desconhecido do Grande Arco”, de Stéphane Demoustier – melhor direção de arte Catherine Cosme), efeitos visuais (Lise Fischer)
. “O Estrangeiro”, de François Ozon – melhor ator coadjuvante (Pierre Lottin)
. “La Petite Dernière” (A Caçula) – melhor atriz revelação (Nadia Melliti)
. “Mort d’un Acteur”, de Ambroise Rateau – melhor curta de ficção
. “Fille de l’Eau”, de Sandra Desmazières – melhor curta de animação
. “Au Bain des Dames”, de Margaux Fournier – melhor curta documental
. César d’honneur – ao ator Jim Carrey
