Gabriel Mascaro conquista, com “O Último Azul”, o Prêmio Ariel de melhor roteiro original

Por Maria do Rosário Caetano

“O Último Azul”, de Gabriel Mascaro, coprodução que uniu Brasil e México, fez história nas relações entre o cinema asteca e o pernambucano.

O longa-metragem, que já havia conquistado o Urso de Prata no Festival de Berlim, ganhou duas láureas na sexagésima-sexta edição do Prêmio Ariel – melhor roteiro original (de Mascaro e Tibério Azul) e melhor melhor montagem (de Sebastián Sepúlveda). Ou seja, converteu duas de suas sete indicações.

Pela primeira vez na história cinematográfica latino-americana, um longa brasileiro, coproduzido pelo México, chegou tão longe na Noite do Ariel (foi indicado até em duas cobiçadas categorias – melhor filme e melhor diretor).

A Revista de CINEMA consultou diversos profissionais mexicanos (e, também, a equipe brasileira de “O Último Azul”) para saber se algo parecido já se passara numa cerimônia de um dos prêmios mais antigos do mundo (o Oscar chegará, em 2028, à sua edição de número 100, seguido, em longevidade, pelo Bafta inglês e pelo Donatello italiano).

Todos afirmaram que nunca houvera nada parecido. Um filme falado em português, ambientado no Brasil, com diretor pernambucano e atores brasileiros (liderados por Denise Weinberg e Rodrigo Santoro) jamais obtivera tamanho destaque.

O que transforma o pioneirismo de Mascaro e de seu “O Último Azul” em algo digno de nota é sua dupla premiação. O Troféu Ariel que chegará ao Brasil (para Mascaro e Azul) assemelha-se à estatueta do Oscar, só que mais politizada e atrevida. Afinal, traz uma águia a seus pés e não foi privada de seu órgão sexual. Gabriel Mascaro e Tibério Azul (também cantor, compositor e escritor), ambos pernambucanos, vivem e trabalham em solo brasileiro.

O outro Ariel conquistado por “O Último Azul” coube ao chileno Sebastián Sepúlveda, de 54 anos, profissional que trabalha com seu conterrâneo Pablo Larraín (“Spencer”, “Jackie”, “Emma”) e também com cineastas mexicanos (caso do ator-diretor Gael García Bernal, em “Chicuarotes”).

Mascaro contou à Revista de CINEMA que seu filme reuniu profissionais de fala hispânica e portuguesa, em busca da tão sonhada integração entre nossas cinematografias.

“No Caminho”, filme 100% mexicano, foi — como se esperava — o grande vencedor da Noite dos Troféus Ariel. O longa de David Pablo, sólida narrativa de alma queer, arrebatou seis estatuetas – melhor filme, diretor, ator (Osvaldo Sánchez), ator revelação (Victor Prieto Simental), ator coadjuvante (Mariano López Soza) e fotografia (Ximena Amann). Todas merecidas.

“En el Camino” (seu nome original) foi anunciado duas semanas atrás como o eleito pela Academia Mexicana de Arte e Indústria Cinematográfica a uma vaga no Oscar internacional. Quem quiser assisti-lo poderá fazê-lo em duas plataformas de streaming disponibilizadas no Brasil (Prime Video e Apple TV).

O longa mexicano coloca um jovem andarilho, Veneno (o ótimo e premiado Victor Prieto), na vida de um caminhoneiro, Muñeco (Osvaldo Sánchez, também premiado). Os dois passam por momentos dos mais conturbados.

Veneno, de rosto moreno e ascendência indígena, vende seu corpo em postos de gasolina. Quando mergulha em situação gravíssima e vê sua vida em risco, ele aproxima-se do caminhoneiro Muñeco e implora por uma carona. O motorista resistirá, com firmeza. Mas acabará cedendo quando perceber que o rapaz carrega sacola recheada de papelotes de cocaína. Prova a mercadoria e percebe tratar-se de material de primeira qualidade. Dispõe-se a ajudar Veneno a revender o produto. Desde que consigam furar o esquema do cartel que domina o tráfico na imensa estrada.

Veneno é gay assumido, originário de Ciudad Juarez, no norte mexicano, área fronteiriça, marcada por altos índices de criminalidade. Esconde um passado obscuro. Muñeco está com sua vida conjugal em frangalhos. Ao longo da carretera, esses dois outsiders acabarão por entrelaçar suas vidas.

“En el Camino” é um belo drama social com ingredientes homoafetivos (e algumas doses de suspense). Mas não foi pensado só para espectadores queer. Outros espectros do público hão de entrar em fina sintonia com este vigoroso road movie.

Além de “No Caminho”, outros dois filmes mexicanos ganharam destaque na Noite do Ariel 68: “La Reserva”, de Pablo Pérez Lombardini, e “Autos, Mota y Rocanrol”, de Gaston Alvárez.

O primeiro conquistou três troféus —  melhor ópera prima (filme de diretor estreante), melhor direção (dividido com David Pablo) e melhor música (para o clarinetista e compositor francês Yom). Quem assistiu ao filme garante que este artista, dedicado à música de raízes judaicas, dá significativa contribuição à atmosfera narrativa de ‘La Reserva’. Diretor e autor da trilha sonora apostam em busca sensorial capaz de levar os espectadores ao coração da floresta de Chiapas. O filme foi impresso em preto-e-branco.

Já “Autos, Mota y Rocanrol”, laureado em quatro categorias técnicas (melhor direção de arte, figurino, efeitos visuais e som) parece navegar por outros trilhos. Seu diretor, José Manuel Cravioto, realizou uma comédia em registro de mockmentary. Ele se propôs a recriar história ocorrida em 1971, no Festival de Avándaro, conhecido como o “Woodstock mexicano”. No qual teria rolado muito ‘rocanrol’.

O favoritismo de “La Libertad de Fierro”, de Santiago Esteinou, e “Soy Frankelda”, de Arturo e Roy Ambriz, nas categorias longa documental e longa de animação foram confirmados pela Noite do Ariel.

“La Libertad de Fierro”, eleito o melhor documentário, narra a vida de César Fierro, mexicano condenado à pena de morte em penitenciária texana. Viveu cativo por longos 40 anos. Graças ao empenho de defensores dos Direitos Humanos, teve sua inocência comprovada e livrou-se da pena capital.

O filme registra a saída de Fierro da prisão norte-americana e acompanha sua complexa readaptação ao meio social, do qual permaneceu excluído por quatro décadas.

O entusiasmo do meio cinematográfico mexicano pelo filme foi tamanho que, mesmo sendo um longa documental, figurou também na principal categoria do Ariel (melhor filme) ao lado de quatro ficções.

O prêmio de melhor animação para “Soy Frankelda” pode parecer fava contada. Afinal, só tinha um concorrente. Entrou, pois, na disputa com 50% de chances. Por sorte, ninguém há de questionar sua estatueta, tamanhas são suas qualidades. Já trazia, antes do Ariel, o reconhecimento dos Prêmios Goya e Platino, que o escolheram  como finalistas (nesses dois casos, enfrentando forte concorrências).

Em diálogo com o cinema de horror, os Irmãos Ambriz acompanham Frankelda, uma jovem e talentosa escritora mexicana. Ela mergulha no próprio inconsciente e se depara com suas próprias (e delirantes) criações e personagens. Tudo no plano fantástico, amplificado pelas imensas liberdades permitidas por filmes de animação. Anunciado como “primeiro longa stop motion da história mexicana”, “Soy Frankelda” conseguiu uma façanha: encontrar espaço, sendo um filme hispano-americano, na poderosa (e disputada) Netflix.

O Brasil disputou, além das sete categorias de “O Último Azul”, o Ariel de melhor produção ibero-americana. E o fez com mais um longa pernambucano – “Manas”, de Marianna Brennand. Perdeu, porém, para o colombiano “Un Poeta”, de Simón Mesa Soto, narrativa original e estranha. Inusitada até. Um dos títulos mais recorrentes nos diversos festivais e prêmios espalhados pelo mundo ibérico. Seja no Goya, no Platino ou no Festival de Havana. O longa colombiano causou forte impressão por onde passou. Mas só os mexicanos tiveram coragem de eleger essa obra rara, que pode até desagradar (causar espécie!). Mas raros serão os que permanecerão indiferentes ao impressionante trabalho do ator Ubeimar Reis e às esquisitices de seu personagem.

Vejam que os filmes derrotados por “Un Poeta” são, além do brasileiro “Manas”, o espanhol “Los Domingos”, de Alauda Ruiz de Azúa, o grande vencedor do Goya, o argentino “Belén – Uma História de Injustiça”, de Dolores Fonzi, e o chileno “O Olhar Misterioso do Flamingo”, de Diego Céspedes. Três sensações do ano em que o Brasil brilhou em Cannes, no Oscar e nos Platino com “O Agente Secreto”, do (também) pernambucano Kleber Mendonça Filho. Só que a Academia Brasileira de Cinema resolveu apostar no distributivismo. Assim agindo, o Brasil ficou (quem sabe!) sem o Goya e o Ariel.

Confira os vencedores:

. “No Caminho”, de David Pablo – melhor filme, melhor diretor (ex aqueo), ator (Osvaldo Sánchez), ator revelação (Victor Miguel Prieto Simental), ator coadjuvante (Mariano López Soza), fotografia (Ximena Amann)

. “O Último Azul”, de Gabriel Mascaro – melhor roteiro original (Gabriel Mascaro e e Tibério Azul), melhor montagem (Sebastián Sepúlveda)

. “Mujeres del Alba”, de Jimena Montemayor Loyo – melhor roteiro adaptado. “La Libertad de Fierro”, de Santiago Esteinou – melhor longa documental

. “Soy Frankelda”, de Arturo e Roy Ambriz – melhor longa de animação       . “La Reserva”, de Pablo Pérez Lombardini – melhor ópera prima (filme de diretor estreante), melhor direção (ex aqueo), música original (Yom)

. “Un Poeta”, de Simón Mesa Soto (Colômbia) – melhor longa ibero-americano

. “Juana”, de Daniel Jiménez Cacho – melhor atriz (Diana Sedano)

. “Las Locuras”, de Rodrigo García Saiz – melhor atriz coadjuvante (Ángela Cruz)

. “Autos, Mota y Rocanrol”, de Gaston Alvárez – melhor direção de arte (Christian Galindo García e Consuelo Martínez Ruiz), figurino ( Gilda Novarro, Joanna Nogueiras Yankelevich), efeitos visuais (Gaston Alvárez, ex aqueo) e maquiagem (Karina E. Monroy), som (Alex de Icaza e David Montero)

. “Un Cuento de Pescadores” – melhores efeitos visuais (Gerado Muñoz e Osmar Israel Ayala de la Peña, ex aqueo)

. “Contraataque” – melhores efeitos especiais (Arturo Vázquez)

. Melhores curtas-metragens – “Las Voces del Despeñadero”, de Victor Rejón e Irving Serrano (melhor documentário), “Azul”, de David Karlak (melhor ficção) e “Desdoblandome”, de Natalia Pájaro (melhor animação)

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